“Tem nem perigo”

por | jun 27, 2021 | Nossa Voz | 0 Comentários

Texto e Fotos/Arte: Alcione Ferreira/Cendhec

Quando tinha 38 anos, a poeta peruana Victoria Santa Cruz escreveu o poema “Gritaram-me Negra”. Nos versos performados pelo corpo e voz da artista, a reivindicação pelo reconhecimento e afirmação do povo negro expandiu-se e atravessou gerações e territórios, ecoando e encontrando vigor e novos sentidos nas gerações seguintes. E é justamente no corpo e nas ideias da poeta marginal e rapper recifense Bione, jovem com 18 anos recém completos, preta, periférica, lésbica e nordestina que os significados do ativismo e arte de Victoria vão encontrar similaridades e multiplicidade de potências nas diversas formas de produção artística da jovem pernambucana.

Bione dá início ao transbordamento do seu fazer artístico aos 11 anos trazendo uma série de poemas cujo tema era fruto de uma descoberta interior: o amor. Essa será sua primeira luta e necessidade de expressão, poder falar da sua forma de amar. “Eu tava apaixonada, apaixonadinha… e resolvi fazer poesias para entregar a uma menina. Por ser diferente, por gostar de outra menina, encontrei aí uma forma singela de me expressar.”. Foi nesse contexto que a então menina já encarava e enfrentava o preconceito da sociedade através da arte. O conjunto de poemas resultou mais tarde , em 2019, aos 16 anos, no seu primeiro livro de poesias: “Furtiva”, parceria com a editora independente Castanha Mecânica, o título é também a condição que Bione teve que recorrer para expressar seu amor frente à intolerância da sociedade com apenas 11 anos de idade: discreta, secreta e quase invisível .

Um pouco depois dos primeiros poemas, a menina entra na adolescência e no ensino fundamental. A escola passará a ser também seu espaço de reflexão e entrada de outras pautas que darão o tom de sua maturidade artística: “nos meus processos de autoconhecimento, por ser uma menina preta de periferia numa escola particular, onde a maioria era branca, deu logo pra entender esse recorte social, esse recorte de raça e de gênero, por já ali me entender como uma menina lésbica. Daí eu comecei a colocar nesses poemas coisas que me incomodavam, nesse entorno falando do meu povo preto, das meninas pretas, sobre autoestima preta”. A condição para estudar em escola particular está relacionada à ideia de que o ensino privado teria mais qualidade e , consequentemente, traria uma formação melhor para a artista e sua irmã: “minha mãe sempre quis nos dar oportunidades que ela nunca teve. Por isso desde quase sempre nós estudamos em escolas particulares, embora ela tivesse que se esforçar muito para pagar”. Foram doze anos na rede privada de ensino, e só a partir do primeiro ano do ensino médio passou para a rede pública e sua irmã durante o nono ano do ensino fundamental para o Liceu de Artes e Ofícios, escola pública de referência conveniada com a rede privada através da Universidade Católica de Pernambuco.

Bione começa então a apresentar para as (os) colegas da escola seus textos poéticos e nesse contexto irá incorporar a performance para interpretar seus escritos “Eu comecei a recitar na escola. Tudo que eu escrevia era sempre naquele ambiente, com as amigas e amigos de lá que primeiramente ouviam minhas poesias”. As apresentações para colegas, nos intervalos das aulas, foram tomando corpo e Bione foi expandindo suas performances para além do espaço físico escolar. Por gostar muito de rimar e pelas temáticas abordadas nos seus textos foi naturalmente entrando no movimento hip hop e, consequentemente, nas primeiras batalhas de Slam (competições de poesia falada com temáticas ligadas a periferia).

Seu caminhar pelo território escolar e pelo território do hip hop também foi de confrontamentos e luta por afirmação. Quando começou a receber aulas de Filosofia e Sociologia, disciplinas que sempre quis acessar na sua formação escolar, deparou-se com um professor que falava sobre suas próprias vivências religiosas. Por não concordar com a postura do educador foi expulsa de uma de suas aulas: “Ele falava de bíblia a partir das vivências religiosas dele, como religioso, que eu respeito com toda certeza, mas envolver isso na aula pra mim era um problema porque o Estado é laico”. É aí que entra Janaína Melo, mãe de Bione. Ao chegar na escola e ficar sabendo que a filha seria suspensa por três dias disparou: “Olha, ela sabe o que está falando. Eu sei do que ela está falando”. Bione fica emocionada quando lembra esse dia e o que significa Janaína em sua vida : “eu tenho muito da minha mãe, que é uma mulher incrível. Sempre trabalhou com política, com cultura e eu aprendi com ela.” Janaína sempre usou uma máxima que hoje a jovem carrega com orgulho no seu corpo presente e visível: ‘Tem nem perigo’. A frase, tatuada em seu braço direito pelo tatuador Moacir Almeida, a inspira sempre a ter coragem e confiança. Durante a produção deste texto Bione ainda acrescentou uma informação toda orgulhosa sobre Janaína: “Mainha se forma esse ano em Serviço Social”.

“… Eu faço de tudo para prosseguir
Quando dizem que eu não vou conseguir
Tudo que eu faço é pelo meu espaço
Atropelando macho que quer me impedir…”

Trechos de versos performados por Bione durante Batalhas de Slam

E não tem mesmo perigo de Bione não se jogar com voracidade na sua luta para ter o direito de se expressar. Durante sua primeira experiência para se inscrever numa batalha de rima, por volta dos 13 anos, já enfrentaria o machismo: “eles (os meninos) não queriam permitir mulheres, ‘só pode batalhar boy!’ , diziam. Daí eu omiti meu nome para poder me inscrever. Meu nome é Júlia Bione, mas aí coloquei só Bione, que é meu sobrenome, assim eles não iriam saber se era menino ou menina”. Ao chegar no local da competição foi novamente barrada. Continuou tentando até que a organização do evento mudou e passou a incluir meninas. “Consegui me inscrever, fui batalhar, perdi, mas participei. Eu senti que precisava fazer aquilo para dar um passo à frente, mas antes tive que passar por aquela experiência, foi isso que pensei na época até. Foi daí que ficou sendo Bione o meu nome artístico de vez”. E dali em diante a artista entraria de vez no cenário hip hop, ocupando o primeiro lugar no Slam das Minas Pernambuco em 2018 e ficando com o terceiro lugar no Slam das Minas Brasil: “Eu era a mais jovem, com 15 anos, entre as 24 competidoras. Foi um marco pra mim, negócio histórico, eu não consigo nem explicar qual foi a sensação que senti no Slam BR”.

Apesar de reconhecer no ambiente escolar o lugar onde surge e experimenta sua arte, Bione também levanta uma questão importante sobre a escola: a necessidade de ser mais propositiva com a arte e as pautas que estão à margem da sociedade. De se tornar um espaço verdadeiramente inclusivo e propositivo. Lembra que as vezes em que se apesentou nos calendários da escola foi por conta de um movimento que começava por ela, suas amigas e amigos, depois chegaria às professoras e professores, coordenação e por fim a direção validava. “Era meio que um telefone sem fio e um caminho que começava nos estudantes até chegar à direção, que aprovava e incluía minhas performances em algumas datas oficiais”.

Bione já concluiu a educação infantil e os ensinos fundamental e médio, mas reivindica uma realidade diferente da existente hoje para as próximas gerações, especialmente para as meninas. “A história das pretas e pretos vai muito além do que está dentro dos livros didáticos. Eu quero que minhas filhas e os meus filhos tenham acesso a uma escola mais inclusiva, que fortaleça às meninas pretas principalmente. A gente sabe que existe toda uma sociedade que é formada a partir da educação, as (os) estudantes vão se tornar adultas (os) e vão começar a conviver com outras pessoas adultas, com crianças e adolescentes.” Lembra que algumas vezes em que se apresentou na escola sentiu o quanto era responsável, a partir da sua arte, ao falar sobre temas como o racismo e o machismo. Ao final de suas apresentações, as poucas meninas negras da escola particular, em sua grande maioria bolsistas, a procuravam para agradecer pelo estímulo, por se reconhecerem em seus versos. “Essa era a minha revolução na escola”, orgulha-se Bione, a menina mulher da pele preta.

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