Nossa Voz

Pés de meninas e mulheres também foram feitos para se meterem em chuteiras

| 8 de março de 2023
Meninas e mulheres boleiras no Amapá do Maranhão (MA). Compartilhando de uma paixão nacional: o futebol. FOTO: Alcione Ferreira/Arquivo

Reportagem: Alcione Ferreira

O título desta matéria é na verdade uma resposta ao depoimento do senhor Iguesil Marinho, à época assistente técnico do Ministério da Educação, que em 1941 daria, segundo o jornal maranhense O Imparcial, “oportunas declarações” sobre a prática do futebol feminino no Brasil. A frase de Marinho, com status de manchete na página 14 do vespertino, dizia literalmente:  “Pé de mulher não foi feito para se metter em shooteiras!”. O machismo no futebol, maior paixão brasileira, também é estrutural e histórico, e ainda hoje, apesar de passados 80 anos dessa problemática alegação, proferida por um importante representante da pasta da educação, ainda é comum que mulheres e meninas enfrentem a misoginia no futebol dentro e fora das quatro linhas dos campos dos estádios, das várzeas ou nas quadras poliesportivas dos ambientes escolares.  

Manchete no jornal O Imparcial em 1941. Declarações misóginas com apoio institucional

Para contextualizar a atitude reprovável do jornal O Imparcial em apoiar a fala de Iguesil Marinho é preciso que situemos o período: o Brasil está ainda engatinhando em relação a reconhecer os direitos das mulheres, são exatos 09 anos que separam a declaração de Iguesil da lei que reconhece o direito ao voto feminino, sancionada em 1932. E é justo em 1941 que o Brasil passa a proibir partidas de futebol entre mulheres. Para muito além da questão do esporte em si, o Brasil, país que carrega o slogan de “País do Futebol”, dá uma das maiores demonstrações de misoginia de sua história. O decreto lei 3.199 de 14 de abril de1941 dizia “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Entretanto a lei de natureza arbitrária e retrógrada não impediu que mulheres brasileiras reagissem e se organizassem, ainda que de forma clandestina, para jogar nas inúmeras várzeas em solo brasileiro. Quase 40 anos depois, em 1979,  o futebol feminino foi oficialmente reconhecido no Brasil e passou a ser legalizado.

Léa Campos: detida pelo menos 15 vezes por apitar jogos de futebol feminino

O obscuro e vergonhoso período de quase meio século em que mulheres foram impedidas de praticarem treinos e jogos de futebol no Brasil está  documentado no “Museu do Impedimento”, uma iniciativa digital que nasce da parceria da plataforma Google Arts & Culture com o Museu do Futebol. Lá estão reunidos documentos, além de fotos e histórias de diversas mulheres que foram impedidas de praticar o esporte. Algumas foram até presas, a exemplo de Léa Campos, considerada a primeira árbitra do mundo. A juíza foi detida pelo menos 15 vezes, por apitar jogos de futebol feminino.

 

PESQUISA

Em recente pesquisa, lançada em novembro de 2022, sobre desigualdades de gênero na educação pública realizada em três municípios pernambucanos: Igarassu, Recife e Camaragibe, pelo Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social – Cendhec com apoio do Fundo Malala, 438 meninas de 08 escolas da rede pública municipal apontaram diversas questões ligadas a essas desproporções. O estudo apontou que 60% das estudantes consultadas acreditam que existe preconceito em relação à prática de esportes pelas meninas e que este preconceito viria predominantemente dos meninos, que foram citados em 91% das respostas. No universo das escolas que integraram a pesquisa o esporte mais ofertado é justamente o futebol, presente em 80% dos estabelecimentos educacionais.

“NINGUÉM QUERIA JOGAR COMIGO”

Quem bem sabe da realidade apresentada por esses números é Wennely Santos Soares, 19 , moradora da comunidade Alto da Bondade, zona norte do Recife. Wennely ainda estava aprendendo a falar quando já era introduzida na linguagem do futebol. Aos dois anos acompanhava o pai, o porteiro Willamis José Soares, 43, nos jogos de várzea da comunidade. Não iria demorar muito para a menina começar a se desprender da condição de observadora para reivindicar um lugar nas jogadas e logo cedo enfrentar desafios: “ninguém queria jogar comigo por eu ser a única menina”, comenta Wennely ao recordar seus 06 anos de idade. Porém, foi aos 13, durante o ensino fundamental, que a adolescente guarda uma lembrança nada agradável: Após uma partida de futebol na quadra da escola, da qual Wennely sairia vitoriosa da disputa, um menino bastante inconformado, a empurrou da escada e disparou: “Eu não aceito perder para menina!”. Um misto de indignação e tristeza tomou conta da estudante, que ainda ouviu o conselho pouco didático do professor ao estudante raivoso: “Infelizmente tu tem que aceitar que perdeu, ainda que seja para uma menina”.  Nessa época a escola de Wennely não trazia questões como o machismo para serem discutidas em sala de aula, “Vou te falar uma coisa: eu nem sabia o que significava desigualdades de gênero, não debatíamos sobre isso nas aulas”, pontua.  

Wennely (colete verde) rodeada por suas memórias: de acompanhante do pai nas partidas de várzea aos treinos na fase adulta.

SOLIDÃO DE SER MENINA

Hoje, Wennely continua jogando: driblando aqui e ali o machismo, marcando as oportunidades e defendendo seu direito de disputar um lugar nas quatro linhas. Sente, porém, falta de mais meninas vivendo o futebol como ela. “Eu meio que me acostumei com essa situação, mas não desisto de encontrar outras meninas que gostam de jogar.” E foi nessa busca que ela conheceu, há dois anos, o “Pacheco”, time formado só por mulheres em Jaboatão. É lá que meninas de várias cidades e bairros diferentes se encontram para treinar, participar de campeonatos e compartilhar a paixão em comum pelo futebol. Além do Pacheco, Wennely integra um grupo de 54 pessoas, do qual apenas 4 são meninas, que se encontram para jogar partidas de futebol society no bairro de Beberibe, zona norte de Recife. “Lá tem que ser na base do sorteio se não na hora de formar os times nós meninas não entramos”, afirma a jovem jogadora.

LARI É GOOOOL!!!!

Desconstruir o machismo no futebol é uma pauta presente, necessária e mesmo imperativa. Que o diga Larissa Victoria Souza,13, ou simplesmente Larigol, como ficou conhecida depois que um desabafo seu em uma rede social viralizou mundo a fora. Em um vídeo feito em casa, na comunidade do Vasco da Gama, zona norte do Recife, a menina, então com 10 anos de idade, mandou uma mensagem contundente sobre o preconceito que vinha sofrendo na vizinhança e na escola pelo simples fato de gostar de futebol: “Eu não vou desistir, não. Me respeita, pô, eu sou mulher! Eu quero ser tratada bem. É difícil entender isso?” E dá o arremate indispensável nos preconceituosos de plantão: “Faça o seu que eu faço o meu, beleza? Aprenda a se educar”.  

Larigol: driblou o preconceito e marcou um golaço para o empoderamento feminino

Com determinação e principalmente apoio incondicional de sua família, Larissa continua treinando, participando de jogos e campeonatos. É disciplinada, focada e aguerrida, características indissociáveis de uma campeã. Sobre o papel da escola no processo de empoderamento feminino no futebol é enfática: “Na minha opinião a escola tem que ensinar sim sobre a história do futebol feminino, sobre direitos das mulheres para combater o machismo, porque nessa época em que a gente tá vivendo esse tipo de preconceito só dificulta o sonho das meninas que querem jogar”. Quando perguntada se acredita que seu vídeo pode ter encorajado outras meninas Larigol responde feliz: “Depois que meu vídeo viralizou eu conheci muitas meninas que gostam de futebol, e elas me contaram suas histórias”. Wennely, a qual narramos a história nos parágrafos anteriores também ficou conhecendo a Larigol através das redes sociais.

As experiências vividas por Wennely e Larissa, meninas moradoras de periferias e apaixonadas por futebol se entrecruzam com as de inúmeras outras meninas e  mulheres, que ainda se veem em pleno século XXI na busca pela simples liberdade de jogar o seu próprio jogo. Nesse sentido a escola tem um papel essencial na desconstrução das velhas estruturas que ainda teimam em paralisar a partida e determinar quem pode ou não calçar as chuteiras. Ignorando os velhos conceitos Larigol deixa um importante recado: “Às meninas: continuem treinando, continuem jogando. E por último, quero deixar uma mensagem às mulheres, sejam elas profissionais, jogadoras, donas de casa, médicas… todas: Um feliz dia das mulheres e digo que vocês são muito fortes e corajosas.”

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