Mulher vestida de força

por | jun 27, 2021 | Nossa Voz | 0 Comentários

Com 27 anos e muitas lutas coletivas pela valorização da mulher e da juventude negra e periférica, Biatriz Santos, ou Bia, entrou para a disputa eleitoral no pleito de 2020. Concorreu, juntamente com outras 431 candidaturas, a um dos 13 assentos na Câmara de Vereadores e Vereadoras da cidade de Camaragibe – PE. Na sua primeira candidatura, ficou em segundo lugar como a mulher mais votada entre os partidos de esquerda de seu município, atingiu o número de votos necessários para se eleger mas não o coeficiente de seu partido. Apesar do aumento de vereadoras eleitas na região metropolitana do Recife, que em 2016 teve 21 e chegou a 2020 com 26, Camaragibe foi o único município da região que não elegeu mulheres vereadoras nas duas eleições de forma consecutiva. Embora a cidade tenha eleito uma mulher como prefeita, a total ausência de representatividade feminina no legislativo municipal, responsável pela elaboração e votação de leis e fiscalização do executivo, preocupa Bia: “Hoje Camaragibe não possui uma secretaria da Mulher. É fundamental ter recurso próprio (…) para que seja uma pauta central. Importante subir esse status”. Em entrevista ao site Afrontosas, Bia contextualiza sua militância a partir de memórias e percursos vivenciados sempre de forma coletiva, onde se fortalece e encontra o sentido para a luta constante.

Texto e arte: Alcione Ferreira/Cendhec
Fotos: Arquivo pessoal/Biatriz Santos

Como o ativismo social chega a sua vida?
Teve algo que marcou muito minha vida. Que me impulsionou. O debate racial sempre esteve presente na minha família. Mas aconteceu algo específico que foi o gatilho para que eu, a partir de um sentimento de revolta, fosse impulsionada a entrar na militância. Ocorreu uma abordagem policial e os policiais meteram o pé na minha casa, e a quem eles estavam procurando? uma pessoa envolvida no narcotráfico, era em outro lugar. Eu deveria ter uns oito anos, então eu vi o policial entrando em minha casa, sem autorização, arrombando mesmo. Minha mãe ficou tentando tapar os olhos de minha irmã, muito pequena na época, mas ela viu aquela cena mesmo assim. Foi horrível. Aquilo me deu muita revolta, eu queria ser juíza para fazer justiça, eu cresci com essa ideia, e foi quando encontrei os movimentos de Direitos Humanos para enfrentar essa realidade e mudar esse sistema. Comecei a me envolver em discussões sobre raça e gênero, num primeiro momento a partir da estética, a questão do cabelo crespo e tal, mas ainda que essa discussão fosse estética ela também era política e me colocava em um lugar de desabafo e me aproximava de meu povo. Daí por diante fui a fundo mesmo para estudar a questão do racismo e seus desdobramentos.

Nesse momento você já estava efetivamente nos coletivos?
Ainda não estava diretamente nos coletivos mas é o meu começo para isso. Começo a me articular e cheguei até a puxar uma marcha pelo fim do extermínio da juventude negra em 2015 no Recife. Logo em seguida eu entrei no coletivo Afronte. Daí fui gostando muito dessa experiência e fundei junto com outras pessoas, em 2016, o Coletivo de Juventude Cara Preta, um coletivo da região metropolitana do Recife, trazendo a pauta da juventude negra para o enfrentamento ao racismo e o empoderamento do povo negro.

A partir das pautas sobre a juventude negra como você tem observado a questão das meninas?
De maneira geral eu sinto que as pautas sobre juventude negra, em especial as meninas, carece muito ainda de um debate mais profundo aqui em Camaragibe. Eu cheguei a fazer parte de uma conferência de juventude daqui e percebo que o recorte de gênero dentro das questões raciais e de juventude precisa ter mais força e mais debate sobre as meninas. A questão sobre meninas negras se reconhecerem enquanto mulheres negras foi um debate que a gente no Cara Preta trouxe à tona para discutir aqui na cidade. Ainda vejo pessoas que tentam negar suas origens. Como se ser negra fosse algo ruim. Outra coisa é que a escola ainda trabalha a questão da afrobrasilidade de uma forma só lúdica ou só dentro de uma data específica, a exemplo do dia da Consciência Negra. É preciso primeiro saber como colocar o debate racial para a sociedade. E é aí que entra a questão das meninas negras: elas estão, muitas vezes, assumindo a identidade de seus cabelos, por exemplo, mas ainda sem entender a força e importância política disso, para além do comércio, da moda. Daí, sem a consciência racial, os cabelos podem voltar a ser alisados a partir do que indica o capitalismo. Nós estamos num movimento de resistência, empoderar politicamente as meninas negras é fundamental. A história do cabelo crespo é também uma história de luta, ela fala de nossa relação com o quilombo, com a África, com nossa identidade. E são essas histórias orais que a gente traz que os livros didáticos ainda não contam, acaba ficando pelo meio do caminho nos ensinos fundamental e médio.

Com o Coletivo de Juventude Cara Preta: incidência política na luta antirracista

Estética é um elemento político nesse contexto educacional?
Sim. Vou dar um exemplo: fui dar uma palestra numa escola e o tema que trabalhei foi sobre o extermínio da juventude negra, não era exatamente sobre estética, na época eu estava com um cabelo mais black, não estava usando os dreads de agora, e eu era ali uma pessoa negra defendendo uma pauta racial, dizendo o quanto era bonito o cabelo black. E aí as meninas e meninos que estavam lá se identificaram com aquela fala. Teve uma menina que levantou-se e disse: ‘Olha, Biatriz, a professora que lhe convidou para fazer esse debate é super racista. Uma vez eu estava com meu cabelo alisado, havia chovido e aí meu cabelo ficou um pouco assanhado, pois ela foi logo falando mal do meu cabelo, disse que era ‘ruim’.’ Veja, os próprios educadores estão reproduzindo um pensamento racista. A gente precisa pontuar o 20 de novembro mas a consciência negra precisa ser diária, e não só naquele dia isolado. Depois que a aluna relatou isso nós fizemos um ato em frente à escola com cartazes com frases como ‘Professores racistas não passarão’.

Enegrecendo ideias numa das muitas palestras e rodas de conversas com estudantes de escolas públicas

Como você vê a questão da desigualdade de gênero no ambiente escolar e fora dele no município?
Pela minha percepção eu vejo que isso é muito latente ainda. São as meninas que saem da escola para assumir casamentos, para entrar no serviço doméstico. Tudo vai rebater na falta de uma política pública que olhe com seriedade e comprometimento. Uma política que olhe para questões de direitos sexuais reprodutivos, sexualidade, corpo. Essas discussões ainda, e sobretudo dentro do sistema escolar, a depender de quem está assumindo os cargos da política institucional, tornam-se assuntos conservadores. Nos momentos em que estive nos debates dentro das escolas em Camaragibe, trazendo alguma discussão nesse sentido… nossa… foi motivo de piada, de risadagem, das pessoas sentirem como se esse assunto ainda fosse um tabu muito grande para se tratar num ambiente escolar. E aí tem toda uma questão de como o educador está entendendo e tratando esses temas. É como se educar fosse só ensinar química, matemática, educação física, mas o debate sobre gênero e sexualidade, hoje cada vez mais necessário, inclusive aqui trazendo também a questão das meninas trans, fica fora da escola, fica para dentro de casa ou para a sociedade educar. A escola precisa ser antes de tudo plural para entender as diferenças, senão vira opressão. Se a gente, enquanto espaço de educadores, entender que a escola precisa estar aberta para além do ensino da grade curricular, esses preconceitos serão sempre corriqueiros na hora da aula, no intervalo, na volta pra casa, dentro do busão. Precisamos muito de educadores sensíveis a essas pautas. A escola também deve ser um espaço para combater preconceitos e opressões.

De que forma você entra para a disputa política dentro do contexto institucional partidário?
Olha, depois da morte de Marielle Franco, eu tava no Fórum Mundial de Juventude. E a morte da vereadora mexeu muito comigo, no processo do movimento das mulheres negras e tudo que se deu a partir dali, de estarmos na política e nos tornarmos sementes, levando o legado de Marielle. A morte dela, sobretudo, foi um recado para o movimento negro, para as mulheres negras que estavam enegrecendo esses espaços, e nós não poderíamos ficar caladas. A quantidade de candidaturas de mulheres negras após o assassinato de Marielle aumentou e isso é muito importante. Se o recado era pra gente recuar, fizemos o contrário: avançamos. Eu entendo que a gente precisa enegrecer esse espaço da política institucional, que reflete a minha luta também. Vi que precisava fazer uma incidência política a partir da minha cidade, onde eu vivo e atuo, percebi que havia chegado o meu momento. Os coletivos defenderam muito essa minha inserção na disputa em Camaragibe. Eu topei esse desafio sabendo muito do que eu iria enfrentar. Eu fui a segunda mulher mais votada dos partidos de esquerda da minha cidade, para uma primeira candidatura isso significa muito.

“Eu entendo que a gente precisa enegrecer esse espaço da política institucional, que reflete a minha luta também”

Na rua Elisa Cabral, centro de Camaragibe, Bia Santos, uma mulher negra e periférica amplifica sua voz durante as eleições 2020

E como foi enfrentar essa disputa?
(Risos)… eu fico rindo porque eu realmente não sei de onde vem tanta força para encarar a política aqui. É uma luta muito pesada. Só pra você ter uma ideia, durante a candidatura sofri fake news, racismo, misoginia, homofobia, por conta das pautas que defendo. Eu era diferente do comum. Eu até recebi uma carta de uma pessoa dizendo que eu não deveria ocupar uma cadeira na Câmara dos Vereadores, que não poderia ser uma candidata, não era momento para mim. Uma carta em PDF e assinada. Mas por outro lado eu contava com a minha força, a força da militância e dos coletivos, do povo, das comunidades onde sempre estive presente.

Quais as principais pautas defendidas na sua candidatura ?
A questão de atender as necessidades básicas da comunidade que há muito tempo são negligenciadas: mobilidade, saneamento básico. As áreas descobertas, que são fruto das ocupações em áreas verdes. São comunidades que cresceram muito e não tem acesso à saúde do município, não há agente de saúde para essa população, não há posto de saúde. A juventude é também uma pauta forte na minha candidatura, pensando aqui sobre processos como a falta de lazer. É uma juventude que vai buscar lazer no Bairro do Recife (bairro do centro do Recife ligado a turismo e encontro de juventudes) porque aqui não dispõe de opções. E aí muitas vezes quando se levantam aqui movimentos juvenis a partir das batalhas de Slam, do hip hop, chega a guarda municipal mandando parar. Então essas são pautas que eu estou muito presente. A questão da visibilidade para as mulheres negras, do combate ao racismo na cidade. Tem até um projeto de lei que estávamos pontuando no meu processo de candidatura que era o seguinte: que nas creches que fossem levantadas na nossa comunidade tivesse um edital público para empregabilidade das mães nesses espaços e assim conseguir que ficassem próximas de casa e dos seus filhos.

Tem também a questão da moradia e da posse da moradia. Muitas pessoas estão morando em ocupações há vários anos e o risco de desapropriação ainda é muito grande. Queremos a regulamentação, o título de posse para essas pessoas. Uma questão interessante é que nesse meu processo de candidatura nós seguimos algumas experiências como a de Marcelo Freixo pra vereador, no Rio de Janeiro. Ele colocava uma pergunta para a comunidade: ‘Se vc fosse vereadora ou vereador, que cidade você queria ter?’ A partir daí fomos construindo em coletivo, o povo ia preenchendo as principais questões das pautas, levantando as prioridades. Dentro do processo de candidatura vou também iniciando o coletivo Favelas Camarás.

Com o coletivo Favelas Camarás que surgiu durante sua campanha para vereadora

“durante a candidatura sofri fake news, racismo, misoginia, homofobia, por conta das pautas que defendo”

Em 2019 no Congresso e Senado Nacional durante incidência da Coalizão Negra Por Direitos

Fale um pouco sobre sua defesa do pertencimento territorial. Quais territórios você vem trabalhando em Camaragibe?
Aqui perto tem o lixão da cidade, onde territórios foram se formando no entorno dele como é o caso da comunidade Bondade de Deus, que fica no bairro de Santana, o Alto do Mirante e Céu Azul, onde moro. Nesses territórios há um perfil recorrente de pessoas que trabalham como catadores, empregadas domésticas ou estão desempregadas(os). No Alto do Mirante, que fica por trás do lixão, há uma luta enorme por reconhecimento, lá não tem nem CEP, não chega serviço dos Correios. É triste ver a situação desses lugares e é aí que entra os processos de resistência, de sobrevivência. A defesa dessas comunidades é essencial pra mim.

Rede de cuidados coletiva nos territórios mais vulneráveis do município

E a vulnerabilidade das mulheres nesses territórios?
Muito alta. Além de que muitas vezes são elas que assumem as famílias, acúmulo de tarefas domésticas, de conseguir alimentação para os filhos. Hoje Camaragibe não tem uma Secretaria da Mulher, tem uma coordenadoria. Então por aí você já vê que não temos uma Secretaria com recursos próprios. É importante ter recurso próprio pra trabalhar várias questões da mulher, para que seja uma pauta central. Importante subir esse status.

Existe representatividade da mulher na Câmara de Vereadores de Camaragibe?
Camaragibe não elegeu nenhuma mulher para a Câmara de vereadores e vereadoras nas eleições 2020. Além disso, temos que refletir sobre que representação feminina é essa que queremos enquanto mulheres da cidade. Que mulheres queremos eleger? Isso é uma questão fundamental. A gente precisa, e muito, de representação feminina aliada com as pautas de gênero, voltada para a mulher da nossa cidade, para seu fortalecimento. Ainda não vejo a Câmara pautando essas questões para além de uma homenagem a alguém. Temos que pensar representatividade de gênero e representatividade de pautas.

Você pretende tentar uma candidatura novamente?
Ainda é cedo para dizer. Eu estou amadurecendo o processo que foi essa experiência da última candidatura. A política institucional é, sem dúvida, um caminho, mas eu já venho fazendo política e processos de incidência a partir dos coletivos que integro. São processos que muito contribuem para o que acredito. A política institucional eu não descarto, mas é um caminho que eu quero estudar mais, analisar de forma mais profunda a partir do que vivi em 2020. Meu objetivo e ação agora é com os trabalhos nas comunidades, que é minha militância, o que acredito e defendo. É muito mais gostoso quando a comunidade pede seu nome, deixa a comunidade decidir se quer meu nome para a próxima disputa.

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