Marielles: Meninas que transformam

por | mar 8, 2022 | Nossa Voz | 0 Comentários

Liderança política brutalmente assassinada, Marielle Franco e sua trajetória seguem inspirando mulheres do Brasil;

Texto: Lenne Ferreira | Ilustração: Alcione Ferreira (Cendhec) | Foto:  Ingrid Veloso

A luta pelos Direitos Humanos conta com muitas frentes e personagens importantes. Em Pernambuco e pelo Brasil afora, não faltam exemplos de mulheres que buscam melhorias para seus territórios a partir de ações de cidadania. Seguindo o exemplo das mais velhas, ativistas ainda muito jovens se mobilizam em prol de causas que garantam mais igualdade e justiça. Assim como Marielle Franco, que iniciou sua trajetória política cedo, na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, elas articulam ações transformadoras. O assassinato brutal da vereadora, há 4 anos,  não cessou a busca pelos direitos da população mais socialmente vulnerabilizada. Pelo contrário, Marielle plantou sementes, que, hoje, lutam para ver florescer uma vida mais digna no chão de suas quebradas.

Artista visual e jogadora de futebol, Mayara Cadete ou May, como é mais conhecida, entendeu seu papel social aos 16 anos e diz que a vereadora carioca é uma de suas referências. Moradora da Comunidade do Bode, no Pina, Zona Sul do Recife, ela é uma das voluntárias da Livroteca Brincante do Pina. Há 3 meses, May resolveu usar seu talento como ferramenta educativa e passou a oferecer aulas de desenho para as crianças que frequentam o projeto. Estudante do 2º ano do Ensino Médio, ela acredita que a arte é um caminho para a promoção da cidadania de crianças que vivem em situação de vulnerabilidade social. 

May descobriu o desenho na infância e se realiza por meio da arte, que, para ela, também é política

“Eu gosto de ensinar o que eu faço de melhor. Na primeira aula, ensinei uma garota a desenhar um personagem que ela gosta muito e, quando ela acabou o desenho e olhou, ficou muito surpresa com o resultado”, recorda.  Para ela, desenhar não é exclusividade de uma artista e pode ser exercitada por qualquer pessoa. “A arte é muito importante e todos nós a transmitimos de alguma forma e qualquer um pode desenhar. Só basta uma folha e um lápis”, acredita. 

A comunidade do Bode é uma área que conta com a força de mobilização de diversos movimentos, a exemplo do Coletivo Pão e Tinta, que promove ações de arte e ocupação urbana. Localizada numa região privilegiada da cidade, cujo metro quadrado é um dos mais disputados do Recife, o Bode não conta com a mesma atenção que outros bairros da Zona Sul. A falta de políticas públicas e oportunidade para a juventude geram problemas como violência, desemprego e a morte precoce de muitos jovens. O contexto motivou May a se engajar com os movimentos locais e tentar contribuir com o que mais ama fazer. “Escolhi essa profissão porque amo desenhar. Desenho desde quando era criança, nunca fiz curso nem nada e sinto que estou no caminho certo”.

As aulas de desenho ministradas por May acontecem semanalmente na Livroteca Brincantes do Pina, projeto de incentivo à leitura, integração artística, cultural e ambiental que tem como base uma biblioteca comunitária, com foco na informação popular. A Livroteca funciona com a ajuda de voluntárias (os) que se identificam com a causa e é encabeçada pelo músico e poeta Ricardo Gomes (Kcal), que criou o projeto há 25 anos e substituiu o tráfico de drogas em uma palafita pelo tráfico de livros. 

Na Livroteca Brincante do Pina, May usa ferramentas lúdicas para promover inclusão social

Recentemente, a comunidade se mobilizou em torno da ocupação do prédio do antigo Centro Social Urbano (CSU), abandonado há 10 anos. A população reivindica a  criação do Centro Cultural do Bode, a fim de que o local volte a ser espaço que atenda aos interesses da comunidade. E lá estava May fazendo coro pela revitalização do espaço e contribuindo com as atividades voluntariamente. 

A adolescente, que gosta de usar o cabelo trançado e roupas não convencionais para meninas, diz que uma das coisas que gostaria de mudar no mundo é o preconceito que persegue as mulheres. “Eu já ouvi tantos insultos de várias pessoas, só pq eu cortei o cabelo e não me visto bem feminina. Esse é o meu estilo, até minha família é preconceituosa e homofóbica. Isso já não me afeta muito”, desabafa.

Com o olhar atento ao seu entorno, May gostaria que a população do seu bairro pudesse usufruir de mais infraestrutura. “Queria melhorar o asfalto da minha comunidade porque eles causam muitos alagamentos”. A falta de moradia e emprego para as pessoas são outros pontos que ela observa como necessidades que precisam ser atendidas pelas políticas públicas. Como ainda não consegue mudar o modo operante de quem tem poder para melhorar a vida das pessoas, May vai usando sua arte como ferramenta. 

“Eu acho que a arte nos conecta com tudo que está à nossa volta e nos transmite uma boa energia. A arte tem um valor muito grande. Tem pessoas que não sabem disso e eu quero que elas saibam que a arte pode tornar a vida delas melhores”. May

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