Espaço delas

Indígena Kajurun’ya, Yafe Dias é movida pela conexão com suas origens e com a ancestralidade

| 24 de abril de 2026

Foto: Yuri Lemos

Texto: Camila Deschamps

O mês dos povos indígenas é uma convocação à defesa de direitos essenciais garantidos e permanentes. A vida indígena em Pernambuco é atravessada por diferentes experiências, caminhos e lutas. Conhecer a história de Yafe Dias Di Napoli revela a singularidade do reconhecimento da sabedoria ancestral e da valorização das raízes que nos formam. Travesti indígena do povo Kajurun’ya e discípula da Jurema Sagrada, ela narra sua história a partir de suas origens e espiritualidade.

Yafe foi criada entre idas e vindas que conectam a capital pernambucana e o município de Carpina, Zona da Mata Norte, cidade natal de sua mãe. Entretanto, em busca de novas oportunidades, a família foi à Milão, no Norte da Itália, terra onde seu pai nasceu. No novo território, caminhos se abriram com o estudo de Belas Artes e Moda. No entanto, foi ali também que a valorização da ancestralidade e da busca por suas origens tornou-se urgência, escancarada a partir do racismo sofrido no Velho Continente. Assim, sua volta para o Brasil é marcada pelo fortalecimento de seus laços familiares e de infância.

Com formação técnica em Agroecologia, Yafe criou laços com solo desde nova. Quando criança, no convívio com os avós maternos, se aproximou do cuidado com a terra por meio de cultivos como o milho, a cana, a macaxeira e as ervas medicinais. Quando retorna ao Brasil, aos 10 anos, a retomada do plantio no antigo quintal da família reacende o desejo de se aprofundar nas técnicas de cultivo. Hoje, Yafe trilha seus caminhos na jornada da luta por dignidade e direitos dos povos indígenas e travestis do território. Faz parte da Coletiva Kajuru’nyá Xeké e ocupa a  vice-presidência da Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (Natrape).

Yafe Dias, 1998. Foto: Arquivo pessoal

AFRONTOSAS – Quem é Yafe? Como você se apresenta? E como você se descreve fisicamente?

YAFE – Sou Yafe, uma travesti indígena, Txioko ( madrinha) e discípula da Jurema sagrada componho o povo Kajurun’ya e sou natureza. Minha pele é morena, cabelos cacheados longos e descoloridos, olhos claros.

AFRONTOSAS – Nos conte um momento marcante na tua jornada de militância.

YAFE – Foi a retomada do território Marataro Kaeté em Igarassu em 2023, território que possibilitou a etnogenesis des Kajurun’ya, grupo étnico ao qual pertenço. 

AFRONTOSAS – Como se deu o início da sua caminhada na Kajuru’nyá Xeké?

YAFE – O coletivo Kajurun’ya xeke nasce no território Marataro kaeté, como organização de pessoas indígenas dissidentes de gênero e sexualidade, que somaram ao povo Karaxuwanassu para ajudar na retomada de território. Nosso coletivo era ponta de lança no território, ajudávamos na limpeza, ronda de segurança, organização de atividades -como a criação de uma farmácia viva em colaboração com “jardim de Saberes”-,  rodas de conversa e palestras com estudantes da UFRPE, UFPE, IFPE e na organização da primeira assembleia do Povo Karaxuwanassu.

Foto: Arquivo pessoal

AFRONTOSAS – Como se deu o início da sua caminhada na Natrape? Enquanto pessoa travesti indígena, o que você acredita que seja o maior obstáculo na luta por direitos atualmente?

YAFE – Cheguei na Natrape em 2021, depois de ter conhecido o coletivo durante a mobilização social para ajudar os moradores da Várzea depois da cheia do Capibaribe, onde a água chegou a invadir muitas casas e ruas da comunidade. Enquanto pessoa trans e indígena, a luta pelo reconhecimento da sua identidade é dobrada devido à negação do gênero ao qual você se reconhece, e a sua identidade étnica negada pelas estruturas do Estado e pela sociedade, que questionam a todo momento a sua existência. O Brasil segue entre os países com maiores índices de violência contra pessoas trans e travestis. Quando somado ao racismo e à marginalização histórica dos povos indígenas, o risco aumenta — tanto em territórios urbanos quanto em territórios demarcados.

AFRONTOSAS – Atualmente, quais são os principais motores/impulsionadores de suas lutas? Quais mudanças você vislumbra a partir delas? 

YAFE – O senso crítico, entendimento do sistema, a revolta com as injustiças e instinto de sobrevivência impulsionam minha luta. O direito de acesso e permanência e uso de políticas públicas, direito à saúde, direito ao trabalho, educação e acesso à espaços coletivos. 

AFRONTOSAS – Como começou a sua relação com a moda? Você a vê como espaço de expressão da sua identidade? Para você, a moda também é política?

YAFE – A relação com a moda se desenvolveu devido à influência da minha  mãe, que é costureira e modelista especializada em moda praia. Através da moda, consigo expressar minha as múltiplas partes que compõem minha identidade e história. A moda nunca foi neutra, e tratá-la como simples estética é, em si, uma escolha política. Quando olhamos para a história da moda sob uma lente crítica, fica evidente que ela foi (e ainda é) uma ferramenta de poder, profundamente ligada a processos coloniais, onde as classes dominantes se apropriam sem reconhecer as origens e esvaziam construções complexas de identidades mundo afora. A moda pode atuar como mecanismo de imposição cultural e estratégia de controle e assimilação. Exemplo: povos originários de vários territórios colonizados no mundo, obrigados a abandonar suas vestimentas tradicionais a favor de códigos europeus.

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