Evasão escolar e analfabetismo: Brasil pode regredir duas décadas

por | nov 14, 2021 | Nossa Voz | 0 Comentários

Texto de Maria Clara Monteiro/Cendhec com Arte de Alcione Ferreira/Cendhec

“Meus filhos e minha filha eram acostumados com a escola, com os coleguinhas. Eles choravam. Eu ficava triste também”.

O sentimento de Roberta dos Santos (nome fictício)* retrata a situação vivida pelo fechamento das escolas, em 2020, em virtude do alto contágio da covid-19. De acordo com uma pesquisa do Unicef e do Cenpec Educação, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes brasileiros ficaram impossibilitados de estudar no final do ano passado, o que corresponde a 13,9% da população brasileira. A pandemia acentuou os níveis de desigualdade social e escolar, principalmente pelo acesso precário às tecnologias, à internet e aos meios eletrônicos.

“As crianças já tinham dificuldades visíveis na educação formal. Na pandemia ficou tudo ainda pior. Com o público que trabalho foi perceptível as crianças sem acesso a equipamentos tecnológicos, sem acesso a internet, mães e pais totalmente analfabetos em plataformas digitais, professoras/es sem nenhuma capacitação para trabalhar de forma virtual”, explica Rosângela Coelho, pedagoga do Cendhec.

Levando em consideração os riscos em manter as escolas abertas para todos os envolvidos no espaço, o Projeto coletivo Escolas Seguras e Acolhedoras, integrado pelas instituições parceiras do Fundo Malala em Pernambuco: Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social, Centro Cultural Luiz Freire, Centro das Mulheres do Cabo e Campanha nacional pelo Direito a Educação (CNDE) através do Comitê PE, lançou um manual com recomendações necessárias para a reabertura das escolas, o que inclui a vacinação dos profissionais e melhorias nas estruturas das salas e nas próprias escolas.

Ainda na pesquisa realizada pelo Unicef e Cenpec Educação, registrou-se que dentre as crianças sem estudos, quatro em cada dez tinham de 6 a 10 anos. Esse número sobe para quase 70% quando são crianças pretas, pardas ou indígenas.

“As crianças negras e periféricas de modo específico que já sofrem o racismo institucional, de classe, estrutural, tiveram seus direitos violados, inclusive o acesso à educação. O que vai reverberar no futuro próximo, pois essas lacunas formadas no seu processo de aprendizagem na pandemia punirão de forma covarde as crianças negras, tornando-as, consequentemente ou não, analfabetas funcionais, que nas suas maiorias estão nas periferias e escolas da rede Municipais e Estaduais”,aponta Rosângela.

Edson dos Santos (nome fictício)*, 07 anos, filho de Roberta dos Santos, teve seu desenvolvimento na leitura prejudicado pelo cenário da pandemia. “Antes, ele estava sabendo ler um pouquinho. Com a pandemia, ele não está mais lendo. Mas está indo para a escola”, conta. Além de Edson, Roberta tem mais quatro filhos, entre eles duas meninas: uma de 09 anos e outra de 01 ano e 09 meses. A família vive numa palafita na comunidade do Bode, bairro do Pina, zona sul do Recife. O sustento econômico vem através do trabalho dela e do marido como pescadores de sururu e mariscos.

Revelou-se que sem o acesso aos estudos durante a pandemia, o Brasil pode regredir vinte anos no combate à evasão escolar, segundo relatório da Unicef. “Nessa importante fase da vida escolar das crianças, elas estão aprendendo a ler e escrever. É uma etapa da aprendizagem que se dá muito em função da interatividade das crianças com outras crianças, ou seja, pela aproximação, e que precisou ser interrompida pela necessidade do distanciamento social em função da pandemia”, expõe Paula Ferreira, também pedagoga do Cendhec. “A questão alimentar também prejudicou as aprendizagens das crianças por considerar que seu acesso à alimentação na escola era diário e que as aulas on-line não garantiam a segurança alimentar de muitos/as estudantes. A ausência de alimentos impede seu desenvolvimento”, analisa.    

ANALFABESTIMO PRESENTE

Atualmente, no país, 11 milhões de pessoas são analfabetas. Ou seja, não leem e não escrevem, segundo critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2019, o IBGE levantou que o analfabetismo brasileiro era de 6,6%, o que equivale a 200 mil pessoas. Observou-se, ainda, que pretos e pardos têm 5,3% a mais de analfabetos, se comparado com os brancos. Entre os idosos pretos ou pardos, a taxa chega a mais de 27%, enquanto entre os brancos, o indicador é de 9,5%.

Um estudo do Datafolha encomendado pela Fundação Lemann, o Itaú Social e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) revelou que 51% das crianças da rede pública que estavam no processo de alfabetização, estacionaram o grau de aprendizado na pandemia. Ao fazer um recorte racial, percebe-se que entre as/os estudantes brancas/os, 57% aprenderam algo novo. No entanto, ao comparar com  as/os alunas/os negras/os, esse dado cai para 41%.

A maior taxa de analfabetismo do Brasil é do Nordeste, com quase 14%. No Recife, 900 mil pernambucanos são analfabetos, segundo o IBGE.

Roberta, que aparece no início da reportagem, jovem mulher negra e periférica, faz parte desse índice e relata como se sente, sendo impossibilitada de ler e escrever. “É horrível. Tenho muita vergonha com isso. Se eu pudesse voltar atrás, me dedicaria aos estudos”, lamenta. Hoje, ela incentiva seus filhos a estudarem e estarem presentes na escola. “Primeiro vem a escola. Quero que eles estudem para que aprendam a ler e escrever. Não quero que eles sejam iguais a mim. Não quero que eles passem pelo o que eu passo”, pondera.

ATUAÇÃO DOS PROFESSORES

O trabalho remoto desenvolvido pelos educadores foi exaustivo. Tendo que lidar com as diversas realidades pessoais das/os alunas/os, foi necessário se desdobrar para ensinar o conteúdo da melhor maneira possível. Desde grupos de WhatsApp a apostilas impressas. As atitudes foram tomadas na medida de minimizar as perdas escolares. No entanto, 908 mil casas pernambucanas não tinham acesso à internet, fato que incidiu diretamente na vida de todas/os as/os envolvidos.

Verônica Santos faz parte da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e está na sala de aula há vinte e cinco anos. Trabalha na educação básica, com Educação de Jovens e Adultos (EJA) e na Educação Infantil, e vivenciou de perto essa situação. “O que a pandemia afetou no processo de ensino aprendizagem na alfabetização foi a falta de acesso à internet. Todo o processo de desigualdade sempre recai muito mais forte e muito prejudicial para nós, povo preto. A educação é o retrato dessa desigualdade e desse não acesso às políticas públicas. Uma mãe pobre, que na maioria das vezes é analfabeta, dentro de uma conjuntura de insegurança alimentar que estamos vivendo, sem condições de manter o acesso às linhas digitais, então, por um grande tempo, muitas crianças ficaram sem o acesso às habilidades que eram propostas por mim. Afetou diretamente o processo do ensino dessas crianças”, explana a educadora.

O Instituto Península realizou uma pesquisa, em maio deste ano, com 7.700 professoras/es de todas as redes do Brasil. Dentre os resultados, 66% estão com muita ansiedade, 88% nunca deram aula virtual e 84% não se sentem preparados para isso.

“Exercer o papel de educadora na pandemia foi muito desafiador. Eu tive que me reconstruir, entender que a educação brasileira está muito preocupada com dados relacionados a recursos financeiros. Infelizmente, a gente ainda vive uma educação bancária. A educação exclui corpos negros todos os dias. Então, o meu papel de educadora nesse processo de pandemia foi estar acolhendo essas mães do ponto de vista do afeto e do diálogo, para que elas pudessem se sentir seguras e para que na hora do fazer a tarefa, não fossem agressivas com seus filhos para só atingir aquela meta do ensino”, conta Verônica.

POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MUDANÇAS

No dia 14 de novembro celebra-se o Dia Nacional da Alfabetização. A data foi sancionada em homenagem à criação do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em 1930, a partir do Decreto de Lei nº 19.402.

A pandemia evidenciou os lapsos das formações escolares. Por isso, é necessário voltar-se ao olhar da/o alfabetizadora/or e reparar nas condições de trabalho, buscando, dessa forma, a ação conjunta entre família e escola por meio da conscientização social.

O Plano Nacional de Educação prevê erradicar o analfabetismo até 2024. No entanto, para que isso aconteça é imprescindível tomar medidas urgentes.

“Se faz necessário a parceria da escola com a família da criança. A necessidade de criar diálogos, chamar especialistas em Educação que possam auxiliar, capacitar, ofertar momentos de aprendizados para se pensar em estratégias pedagógicas reais, fazer um acompanhamento para saber, de fato, a real situação das crianças no que se refere à aprendizagem”, elucida Rosângela. “Promover partilha de boas práticas, e não pode ficar de fora a valorização da remuneração financeira dos professores”, completa a pedagoga.

Para recuperar o agravo causado pela covid-19, Paula Ferreira recomenda um plano de recuperação. “É importante que as escolas entendam o perfil dos/as estudantes mais impactadas/os por esse contexto. A educação para essas crianças não irá avançar se a escola não reconhecer que o contexto da pandemia afetou de forma diferente um determinado grupo de estudantes com cor de pele e seus traços negróides bem definidos. Se faz necessário que haja um investimento em recursos na educação, ou seja, em políticas públicas que invistam nas estruturas das escolas, nos/as profissionais da educação, bem como nos materiais didáticos que valorize sobretudo a diversidade étnico racial e cultural da  população negra para que a identidade das/os estudantes negras/os possam ser fortalecidas e valorizadas”, declara. 




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