
O dia 24 de janeiro compartilha duas datas importantes: o Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente e o Dia Internacional da Educação.
Evidenciando pluralidades, a demarcação que celebra a cultura negra reverencia histórias no continente africano e suas diásporas, como o Brasil. O país manifesta, em tradições, narrativas que revelam identidades, modos de organização social e conhecimentos que têm como matriz e motriz a riqueza cultural afro, em diálogo fundamental com as originárias.
O Dia da Educação foi instituído em 2018, pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com comemoração pela primeira vez em 2019. A data reforça o acesso e desenvolvimento do conhecimento como um direito fundamental e essencial humano, além de ato político e transformador, como alude Paulo Freire, patrono da educação brasileira.
O Brasil tem um registro legal que olha para as duas temáticas de maneira intrínseca: a Lei nº 10.639/2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”.
Apesar da demarcação, e da influência significativa na formação sociocultural, as histórias que compõem a identidade afrobrasileira ainda são negligenciadas e pouco disseminadas nas escolas.
Na contramão do apagamento histórico, comunidades e movimentos tradicionais na Região Metropolitana do Recife (RMR) seguem atuando, em manutenção e fortalecimento das raízes, e propondo transformações expressivas nos territórios, através da cultura e da educação comunitária.
Educação contra colonial
Quilombo do Catucá, em Camaragibe, Centro Cultural Comunidade das Águas, em Jaboatão, Nação Maracatu Encanto do Pina, no Recife. Centros culturais e religiosos que abrem as portas para a transformação social nas comunidades. Os espaços ministram aulas para crianças e adolescentes sobre práticas artísticas – com enfoque em música, dança e oralituras.
Conheça, acompanhe e apoie os trabalhos:
Centro Cultural Quilombo do Catucá (Camaragibe – PE)

O maior quilombo de Pernambuco foi criado por pessoas escravizadas, e liderado por Malunguinho, símbolo de resistência e sabedoria das matas. Segundo levantamento feito pelo historiador pernambucano Marcus Joaquim M. de Carvalho, a formação do Catucá ocorreu às vésperas da independência, durante a Revolução Pernambucana de 1817.
Situado em Camaragibe, o Quilombo fomenta a cultura local com atividades de música, dança e cidadania, desde os anos 90, em projetos como o Maracatu Cabeça de Nego, Grupo Coco do Catucá, Sambadas e Festa das Crianças. O Catucá é espaço de memória, valorização da cultura afro-indígena e da sabedoria ancestral.
Símbolo de resistência, o Quilombo realiza ações comunitárias, educativas e de letramento para as crianças; de suporte a jovens usuários de drogas; além de roda de diálogos e apoio psicológico para mulheres vítimas de violência. Identificando os diversos processos de vulnerabilização da região, o Centro também oferece doações de alimentos e roupas para a comunidade.
Reconhecendo a festa como face construtora, fundante e essencial das identidades negras, a Sambada de Coco do Catucá promove, desde 2003, encontros mensais de valorização da festividade e espiritualidade, com uma programação que apresenta grupos de Coco de roda do estado de Pernambuco.
Centro Cultural Comunidade das Águas (Jaboatão – PE)

A Comunidade das Águas está localizada no bairro do Ibura e é constituída pelo terreiro Egbé Omo L’omi, o Espaço Cultural das Marias, a Coletiva Periféricas e o Grupo de Coco Abre Caminho, além de realizar ações sociais, como a entrega de cestas básicas e mutirões de saúde, promovendo o acolhimento no território.
O Centro Cultural oferece atividades que agregam o bairro em sua programação, com enfoque na arte e cultura, espiritualidade e educação comunitária. É desse modo, com uma perspectiva afrocentrada, que desenvolve encontros por meio dos projetos Feira do Troca e Egbé que Ensina.
A Feira é uma estratégia de enfrentamento coletivo contra mazelas do racismo para estudantes universitários. No evento, os jovens estudam e debatem autores e bibliografias de pessoas negras e LGBTQIAPN+, com o objetivo de aprender mais sobre a própria cultura.
O Projeto “Egbé que Ensina” é voltado para crianças e adolescentes, moradoras/es do bairro, em evasão escolar ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Atualmente com 20 alunos, o Centro oferece aulas de Desenvolvimento Artístico e Criativo, Capoeira Angola e Relações Étnico Raciais.
Nação Maracatu Encanto do Pina (Recife – PE)

Localizado na Comunidade do Bode, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife, a Nação é regida por Mestra Joana Cavalcante e é sediado no Ylé Axé Oxum Deym. O Encanto do Pina foi fundado em 1980, por Maria de Sônia, mulher negra, pobre, sem escolaridade formal e parteira, símbolo de resistência contra a repressão e em defesa do candomblé.
A Nação é a manifestação da resistência cultural, espiritualidade e coletividade que ultrapassa o período do carnaval, mostrando que cultura, nas periferias, é trabalho contínuo e transformador.
Inserido no cotidiano de moradoras e moradores da comunidade, o maracatu fortalece a relação com a comunidade e suas raízes, além de proporcionar a manutenção da herança africana com arte, fé e educação.
Desse modo, o Encanto do Pina realiza oficinas de percussão, dança, capoeira, reaproveitamento de garrafas PET, confecção de instrumentos e atividades pedagógicas para crianças e adolescentes, contribuindo com o senso de pertencimento ao território.
Educação e identidade
O reconhecimento e valorização dos espaços não anulam a responsabilidade do Estado na garantia do direito à educação e ao conhecimento pleno da história. Cuidando do futuro e do presente, promovendo o acesso de crianças e adolescentes aos saberes que compõem seus territórios, a atuação dos centros caminha para além da luta antirracista, aproximando meninas e meninos de sua própria identidade.
O trabalho realizado aponta para a democratização da informação, do acesso à cultura e história do país e das próprias localidades. É na educação popular que se reafirmam, se fortalecem e constroem novos cenários e narrativas.

