Nossa Voz

“Eu entendi, na minha própria escrita, que é potente falar”

| 31 de março de 2026

Texto por Camila Deschamps

Fotos: Camila Deschamps

São palavras as mais fortes ferramentas de uma mulher segura de seus direitos e fortificada em suas lutas. As interseções que atravessam a existência de Samantha Vallentine, travesti, negra, recifense natural do Morro da Conceição, na Zona Norte, surgem a partir de uma realidade delicada.

Na infância, ela relata, percebia sua feminilidade se expressar, mesmo que sutilmente, aspecto sempre repreendido nos ambientes que frequentava. Criada no candomblé, se encantava com as saias longas e os trajes típicos da fé, comum nas periferias da região. Na casa da grande família, Samantha foi criada por sua avó, a qual chamava de mãe pelo forte papel que exerceu em sua vida. Ela cresceu rodeada de tias, tios, primas e primos, no entanto, o contexto de desigualdade e a falta de acesso às tecnologias lhe privou do encontro com referências travestis que a trouxessem identificação.

Em seu crescimento, a vivência escolar a moldou de diferentes formas. Aluna exemplar e incentivada pela família, ela compreendia o colégio enquanto ambiente de investimento no futuro. A adolescência de Samantha foi momento de percepção e reconhecimento da própria existência na esfera coletiva, o que motivou uma fronteira dilemática entre ser ela mesma e performar o que a sociedade esperava dela. Frente à hostilidade de uma binaridade estrutural imposta aos jovens desde cedo, ela se encontra no esporte e faz da quadra de voleibol um espaço para pertencer. Em meio aos saques, se viu em um contexto de forte presença de pessoas LGBTQIAPN+ e encontrou travestis que pôde, enfim, chamar de referências.

Atualmente, Samantha é Doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), presidenta da Nova Associação de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco (Natrape) e cabeleireira, ocupação que adotou desde cedo como alternativa para viabilizar sua independência. Assim, encontrou, no coração do ensino superior em Pernambuco, um lugar para chamar de seu e trabalhar sua individualidade de maneira que fortaleça seu entorno. Ela cultiva uma forte visão coletivista de vida, que acredita que derive de uma infância carente de redes de apoio. Quando Samantha encontra essa rede, ela se prende, não solta, não esquece.

“Nós precisamos de referências”

Formada em Ciências Sociais, Samantha embarcou na carreira acadêmica e hoje é Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da UFPE. Frente aos obstáculos que a atravessaram desde a infância e aos desafios que envolveram a permanência na Universidade, ela teve poucas referências. No entanto, hoje, visualiza a possibilidade de ser uma referência para alguém e vê a academia como um possível espaço de materialização dessa perspectiva.

“Eu gostaria de ser uma referência intelectual, uma referência de travesti, de liberdade, de força (…) Por que não ser a primeira travesti professora do Departamento de Antropologia da UFPE?”

Samantha Vallentine

Hoje, Doutoranda, ela entende a individualidade, aspecto sensível que a vulnerabilizava na infância, como potencializadora da qualidade de seu trabalho, de sua pesquisa. Inspirada pela Escrevivência, de Conceição Evaristo, desenvolveu o conceito de Transnarrativas. Reflete sobre a existência e resistência travesti, que se desenvolve em um espaço, muitas vezes, de precariedade, e que desafia a sociedade e as estruturas em prol da sobrevivência e da demarcação de presença. No local de pesquisadora, mas que também se entende enquanto objeto de pesquisa, ela aplica as dores, implicações e ancestralidades da vivência travesti a uma escrita de vida, a Transvivência.

Foto: Camila Deschamps
Foto: Camila Deschamps

Ao longo de sua jornada na universidade, Samantha chegou ao entendimento de que a linguagem acadêmica e os modos disciplinares de linguagem são ferramentas de manutenção de privilégios e de poder. A tecnicidade dos termos e as formalidades que envolvem o processo da transmissão de saberes, tudo difere e evidencia lacunas, degraus que distanciam. Então, ela busca o coloquial, procura se diferenciar no que diz respeito a uma pesquisa intelectualmente palatável, acessível. Assim, exerce seu objetivo de multiplicar, junto à colega Akuenda Translésbicha, a presença travesti no espaço de produção do conhecimento científico.

“Tem alguma dimensão transformadora nisso. quando todas essas violências, que são imbricadas, são expressadas, você atinge um novo espaço e ele se transforma. O PPGA se transforma, as estruturas se transformam.”

Samantha Vallentine

“A militância precisa de suporte”

Sua jornada na luta por direitos teve início em 2016, ao se integrar à Natrape, Organização da Sociedade Civil (OSC) atuante na garantia dos direitos humanos e da dignidade de pessoas trans e travestis desde 2013. Engajada, Samantha não consegue se enxergar na individualidade da existência e de seus pormenores: quando questionada sobre seus sonhos, mensurou a segurança, a liberdade e os direitos da população trans, bem como o reconhecimento na política.

“Toda vez que eu penso em sonho, eu só penso no ativismo, na política. Se a vida é coletiva, o sonho é coletivo.”

Samantha Vallentine

À época, secretária, Samantha hoje preside a Organização e reconhece os avanços e conquistas de uma militância aguerrida e persistente; no entanto, visualiza lacunas na assistência de quem faz a linha de frente. Ela enxerga um déficit na saúde mental e tem como desafio pensar em como garantir esse apoio para a população trans, compreendendo as especificidades de uma vivência que resiste em meio a violências diversas e que carece de uma rede de apoio que a fortaleça emocionalmente. Forjada no movimento social, Samantha capta a nua essência da coletividade, que vai do sonho à vivência de sua concretização.

Foto: Camila Deschamps

“Meu sonho é a gente avançar nas políticas públicas, é a gente poder sair nas ruas e as pessoas nos reconhecerem como pessoas que têm direitos. Que as pessoas trans possam estar nas ruas da forma que quiser, não somente enquanto profissionais do sexo; que exista um leque de oportunidades para que se possa acessar o trabalho.”

Samantha Vallentine

Share This