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Arte-educação, espiritualidade e alegria são tecnologias ancestrais do Centro Cultural Comunidade das Águas, no Ibura

| 5 de novembro de 2025

A instituição reforça, desde a infância, o sentido de pertencimento ao território para o fortalecimento de identidades.

Texto: Luana Farias

Fotos: Gabriel Silva / @gabrieljdasilva, Jéssica Lopes / @jtlps e GG Silva / @ggsilva.raw

Localizada no lado Jaboatão do grandioso Ibura, a Comunidade das Águas realiza atividades que agregam o bairro em sua programação, considerando uma perspectiva afrocentrada e comunitária. É o caso do Dia dos Erês, celebração em menção ao mês das crianças, que acontece na Rua Quarenta e Nove, no Zumbi do Pacheco. A comemoração é realizada anualmente desde 2019, quando a Egbé Omo L’omi, terreiro de Candomblé e Jurema Sagrada, base do Centro, iniciou suas atividades. Uma das ações mais esperadas pelos moradores da localidade, o evento ganha a rua com brincadeiras, brinquedos, prêmios e a tradicional sacolinha, montada com doces e fé.  

Foto: Jéssica Lopes

“A gente abre as portas do terreiro para que toda a sociedade compreenda e tenha acesso a outras coisas além de violência. O objetivo é criar outros imaginários para essas crianças, numa perspectiva feliz”.

Janielly Azevedo

Mãe de santo da Egbé Omo L’omi, educadora social e coordenadora de comunicação do Centro Cultural Comunidade das Águas, Janielly Azevedo explica que as atividades estão situadas em três pilares: a espiritualidade, a arte e a educação. Tais tecnologias são manutenção de identidades, além de enfrentamento às maquinas de violações sobre corpos negros e LGBTQIAPN+. A felicidade também é tecnologia ancestral.

Em primeiro plano, Janielly Azevedo | Foto: GG Silva

Confluência

“Quando um rio encontra com outro rio, ele não deixa de ser rio, ele passa a ser um rio maior”. Nego Bispo sabia bem a força encontrada na ampliação dos saberes em comunidade. Em reflexo ao que o escritor e ativista quilombola chamou de confluência, o quilombo em Jaboatão é fonte de riquezas incontáveis e multiplica-se em educação contracolonial, produção cultural, grupo de música, performance e culto religioso, reluzindo movimentos de retorno, cura e valorização.

A Comunidade das Águas, Egbé Omo L’omi em Iorubá, carrega no nome sentidos que se encruzam e reverenciam a ancestralidade negra e indígena: Ibura, que significa “nascente de água”, no Tupi; e o elemento de força vital do orixá espiritual da casa de axé, Oxum.  

Alinhados pelo firmamento de uma realidade guiada por filosofias originárias e negras, os integrantes do Centro somam tais estudos às suas especialidades em diferentes áreas do conhecimento. É assim que agregam, além do terreiro Egbé Omo L’omi, o Espaço Cultural das Marias, a Coletiva Periféricas e o Grupo de Coco Abre Caminho. Também são realizadas ações sociais, como a entrega de cestas básicas e mutirões de saúde, promovendo o acolhimento no território. 

O Centro Cultural reivindica direitos e reparação de danos para as periferias. A insistente redução dos bairros mais vulnerabilizados a discursos negativos ainda faz parte de produções brasileiras (midiáticas, acadêmicas, literárias e de linguagens diversas). A cristalização de um único imaginário sobre esses territórios reforça estigmas, desvia a responsabilidade do poder público na acentuação de desigualdades, ignora a pluralidade e efervescência cultural e financia o afastamento da periferia das próprias identidades.

O Centro caminha na contramão dessa estrutura, semeando, desde a infância, autoestima e autoconfiança ao passo que valoriza fazeres artísticos, de manutenção e produção de costumes. Nego Bispo defendia a importância de presentificar saberes quando dizia que “a ancestralidade é agora”. Falar de ancestralidade nas comunidades é retornar, possibilitar, tornar acessível o entendimento e apropriação sobre a própria história, formando redes de cura, com estratégias práticas de incidência.

Educação afrocentrada

“Educar-se, na perspectiva africana, é aprender a conduzir a construção da própria vida. A construção de cada pessoa toma sentido no seio de sua comunidade”. A observação da professora Petronilha Silva ressoa com o trabalho exercido na Egbé que Ensina e na Feira do Troca, projetos do Centro Cultural, que plantam e nutrem sementes com diferentes gerações. Aprender em roda, olhar no olho e espiralar a conversa são essenciais para o aprendizado da educação social.

Egbé que Ensina

Aprendendo em roda
Encontro com os educadores da Egbé que Ensina
Raissa Conceição, Educadora Popular

Na filosofia Bantu, a criança é o centro da comunidade e sua criação é responsabilidade de todos. No Centro Educacional Egbé que Ensina tal forma de organizar-se em sociedade é prática cotidiana desde março de 2024. A escola comunitária acolhe crianças e adolescentes em evasão escolar ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Atualmente com 20 alunos, integrantes de um cronograma de três encontros semanais, o Centro oferece aulas de Desenvolvimento Artístico e Criativo, com Clarissa Beatriz, Capoeira Angola, com Kandimba Davi, e Relações Étnico Raciais, com Raissa Conceição.

“A criança, para uma comunidade de Axé, é o sol”. Orientadora e coordenadora de projeto pedagógico da Egbé que Ensina, Raissa é educadora popular, arte/educadora, estudante de pedagogia, integrante da Coletiva Periféricas, cantora e compositora no grupo Abre Caminho. Ela relata a potência na inserção dos alunos, moradoras do bairro, nas atividades pedagógicas afrodiaspóricas.

A equipe multidisciplinar da Egbé proporciona ensinamento criativo e anti-racista. Dentre os assuntos abordados está a simbologia Adinkra em diálogo com a economia, agroecologia e alimentação. Além disso, as crianças e adolescentes também tem aulas de campo e visitação a espaços públicos. Por meio da Egbé que Ensina, conheceram o Jardim Botânico e o Museu Paço do Frevo, em Recife, além do Aquário Marinho e da Galeria de Arte Sankofa, em Jaboatão.

Também compõe o projeto dinâmicas que abordam o enfrentamento à violência sexual contra meninas e meninos, visando a prevenção, identificação e acessibilizando informações sobre os equipamentos de denúncia. O Centro é espaço seguro para elas e eles, portal de possibilidades para sonhos e reconhecimento de suas potencialidades, além de ser importante rede de apoio para famílias.

Foto: Jéssica Lopes

O olhar cuidadoso para as infâncias, suas necessidades, processos de desenvolvimento social e de formação de consciência de mundo passa por uma lente que entende e respeita o tempo; este que também é interpretado com o ciclo solar, na filosofia Bantu-Kongo, reconhece o nascimento de uma criança como o nascer do sol.

“É importante que dentro do nosso solo, dentro da casa de Oxum, essas crianças sorriam, brinquem. A continuidade desse trabalho só é possível porque a gente faz de forma coletiva e só é possível ele continuar também porque foram essas pessoas e entidades que acreditaram nesse projeto”.

Raissa Conceição

Feira do Troca

No Centro, a educação é circular, coletiva e retorna ao território, potencializando trajetórias, fortalecendo a comunidade com ensinamentos contracoloniais. Os ensinamentos ancestrais não estão paralisados no passado, eles são base e guia de práticas cotidianas nas periferias. O saber é movimento.

O estudo também é estratégia efetiva contra mazelas do racismo, considerando que as desigualdades socioeconômicas impõem às periferias barreiras significativas no acesso à saúde, ao trabalho e à educação, sobretudo à universidade. De acordo com dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 25% dos trabalhadores de Jaboatão levam mais de duas horas para chegar ao emprego. Essa realidade se estende aos estudantes.

“O movimento de massa sempre fez uma mobilização pra que a gente deixasse o nosso território, que a gente olhasse para o nosso território como um lugar ruim”

Janielly Azevedo.

As adversidades na mobilidade urbana e a precarização dos transportes públicos impedem a circulação tranquila entre os bairros mais empobrecidos de cidades adjacentes à capital e os principais centros acadêmicos da Região Metropolitana do Recife, revelando outros abismos. Apesar da política de cotas proporcionar o ingresso na universidade por parte de jovens em vulnerabilidade social, negros e indígenas, a permanência delas e deles esbarra em apagamentos, invalidações e marcas históricas de violações. 

Janielly relata que, em 2020, houve um crescimento de aprovações dos filhos de santo da Egbé Omo L’omi em cursos de educação superior. Junto à isso, também foi notável a profusão de relatos que denunciavam a experiência desigual. “A estratégia que a gente tirou do nosso tabuleiro era a de enfrentar isso junto, trazendo autores, bibliografias de pessoas negras e LGBTQIAPN+. E que ia aprender mais sobre nossas culturas”, relembra.

Agenciando forças para reverter esse contexto, a Feira do Troca é a rede que os estudantes nem sempre encontram na parte interna do muro da academia, e surge para apoiá-los, estimulando suas narrativas, assuntos de interesse, pesquisas, trabalhos e mercado de trabalho. Com afeto e fortalecimento de suas riquezas, reivindica o direito pleno à educação e torna possível a experiência de formação profissional conectada às histórias, identidades e saberes negros e locais.

“A educação afrocentrada vem com uma perspectiva filosófica de colocar a figura do negro (no nosso contexto, afro-brasileiro) num lugar de valorização, de que tudo que você é, fala, diz, olha, sente e produz, tem valor”

Raissa Conceição

O projeto, formado por estudantes e profissionais de cursos variados, se une para oferecer um espaço de estudo, mentorias e recursos que ajudam os participantes na jornada acadêmica, com aulas teóricas e práticas. No encontro mais recente da ação, em maio deste ano, os alunos apresentaram os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), em valorização ao desenvolvimento de conhecimento e ao movimento de retorno para o território.

“Falam como se o Marco Zero, do Recife, fosse o marco do mundo. Para mim o marco do mundo sempre foi a Praça da UR-11, que foi onde eu nasci, cresci, sonhei”

Janielly Azevedo

Jaboatonense, a mãe de santo e comunicadora também enfrenta a chamada migração pendular, mas, resistente ao discurso de que mudar de cidade é a solução para as problemáticas, menciona o orgulho em viver no lado Jaboatão do Ibura. O posicionamento é, também, protesto por políticas e oportunidades para a localidade, além de defesa das potências do município em que nasceu e vive. Olhar para dentro, para as ruas que compõem o cenário de sua vida, é fundamental para renovar pulsos coletivos.

Efervescência cultural

Entender-se enquanto geradores de saberes, em reforço aos que já os inspiram, aponta as estradas frutíferas que formam. A produção de pesquisas pelo Centro Cultural é transformada em atuação no território. Se ouvidas e apoiadas, podem impulsionar projetos e políticas públicas para melhorias no bairro. É o exemplo do mapeamento realizado pela Coletiva Periféricas, com dados dos terreiros do Ibura. A Coletiva é composta por mulheres candomblecistas e foi fundada em 2016, também realiza o CINE Rua Escura, projeto de exibição de produções audiovisuais pretas para a população.  

O Espaço Cultural das Marias trabalha, desde 2016, com a proposta de movimentar e produzir cultura e apresentar suportes de compartilhamento com os artistas. Em valorização e apoio ao trabalho dos profissionais, o Espaço se posiciona na articulação de lugares de ensaio e produção de eventos, além de atuar com fotografia, audiovisual, produção cultural e executiva de feiras pretas, enaltecendo os criadores de cultura do território.

O Grupo Abre Caminho une coco, performance e espiritualidade em sua atuação. Fundado em 2018, o grupo compartilha novas maneiras de fazer música preservando a essência inicial dos estilos musicais trabalhados, a partir da cultura afroindígena, orientados pela Jurema sagrada. Como explicam: “o encontro entre a Alfaia e o pandeiro segue sendo o coração de cada melodia”.

Além das atividades culturais, o espaço já foi sede de doações e símbolo de ajuda humanitária durante as enchentes que atingiram a Grande Recife, em 2022. A Egbé Omo L’omi recebeu e entregou doações para famílias gravemente afetadas, ao passo que também foram vítimas. Foram, mais uma vez, importante rede de suporte e esperança, num contexto em que o poder público se fazia ausente.  Janielly lembra que um dos mapeamentos desenvolvidos pela Coletiva Periféricas observou o alcance das tragédias das chuvas. Segundo o levantamento 567 casas sofreram com as inundações. Ela relata que parte dessas famílias receberam cestas básicas até novembro de 2024, quando as doações deixaram de chegar. 

Enfrentamentos 

Para continuar os trabalhos, abraçando a amplitude que têm e os impactos que exercem no território, o Quilombo lutou pela compra da casa, conquistada em maio, com celebração pelos que enxergam a importância do trabalho realizado pelo terreiro. A partir da posse do lugar, o Centro Cultural mira em expandir os esforços nas ações de articulação, transformação e produção de arte e cultura no bairro.  

No entanto, nesse momento os ataques racistas direcionados ao espaço religioso foram intensificados. O crime de racismo mais recentes, no dia 15 de setembro, foi contra a reforma de ampliação do Centro, quando dois moradores do entorno, um deles autor de outros ataques, desfizeram parte de um muro levantado para maior privacidade das práticas sagradas. O caso, que incluiu agressões verbais de desrespeito à instituição religiosa, foi registrado em boletim de ocorrência como injúria racial, danos materiais e morais, e encaminhado ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE). 

As investidas são antigas, e desde a chegada na casa a Egbé é alvo de discriminações misóginas, LGBTfóbicas e racista religiosa, incluindo tentativa de intimidação policial, fora dos meios legais. Os ataques foram agravados a partir de 2022, quando o espaço foi atingido por uma bomba caseira de grande proporção. 

Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), em 2024, foram realizadas 2.472 denúncias contra intolerância religiosa pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100). Um aumento de 323,29% se considerados os dados registrados entre 2021 e 2024. Seguidores da Umbanda e do Candomblé, principalmente mulheres, foram os principais alvos. 

“A gente tem ferramentas específicas que nos diz que não é o racismo que vai parar a gente. A gente tá no meio de uma obra que é um sonho realizado, é um sonho ancestral, o que está construído já é muito maior”.

Raissa Conceição acredita na força do trabalho realizado com educação e cultura pelo Quilombo.

O andar do rio é seguro

O racismo objetiva enfraquecer e desestabilizar emocionalmente as vítimas, mas a rede de afeto e de fé estruturada na Egbé Omo L’omi se sobressai. Ao longo dos anos a comunidade do entorno passou a conhecer e envolver-se com as ações sociais numa perspectiva do cuidado, do respeito e da valorização da história da Egbé na localidade. Esta relação é evidenciada com o apoio recebido por moradores de religiões diversas, com incentivo e reconhecimento.

Sob os pilares da espiritualidade, arte e educação, a renovação da trajetória existe com força, com bases e propósitos firmes desde sua origem.  Janielly e Raissa realçam a realização de ter uma escola afrodescendente dentro de um terreiro construindo um legado imprescindível para as novas gerações.

Num cenário que supervaloriza o progresso individual, o Centro Cultural Comunidade das Águas faz o caminho contrário, flui com a coletividade e se fortalece nela, compreendendo que esta consciência é estruturante no Ibura e motor de suas ações. Desde a forma de organização em sociedade, até a manutenção de saberes e a construção de narrativas felizes: a comunidade é o centro. 

* O Centro Cultural Comunidade das Águas conta com doações e amadrinhamento de alunos da Escola Comunitária para a continuidade das atividades e recebe apoio de valores diversos. Contribua para o fortalecimento desse legado, confira as informações no perfil do Instagram @egbeomolomi

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